…na indigência redescubramos a preciosidade de todas as coisas…

Título Original: A penitência, ou: a fim de que, na indigência, redescubramos a preciosidade de todas as coisas…

Nada é mais perigoso para o espírito humano do que a riqueza e a perfeição: uma vida satisfeita, sem insônias e sem desejos, olhares que, por terem tudo e nada mais precisarem, já não conhecem mais nem o sorriso sincero das alegres surpresas nem as lágrimas sofridas de uma dor profunda; uma alma sem saudades e sem sonhos, feições graves e sóbrias, sem a aflição das esperas e o desassossego das buscas, corações quietos, indolentes, pusilânimes, petrificados quase, sensatamente contentes com aquilo que são e têm.

Como são, ao contrário, humanamente, repletos de vida os que quase nada são e têm, os que , por se sentirem vazios, ainda se encantam com as procuras e, por sofrerem a dor das ausências, com brilho nos olhos, buscam. Até mesmo os violentos, os imorais e seus semelhantes, por mais reprováveis que sejam sua imundície e brutalidade, causam em nós, os eternamente corretos, uma perplexa e velada admiração. Sua vida é devassa e escandalosa, sem dúvida, mas repleta de razões, fervor, criatividade, entusiasmo e vitalidade.

Mas como despertar nos indolentes a dor, nos saciados a fome, nos que tudo têm as saudades não do que se foi, mas do que poderia ainda ser? Como acordar nos homens uma inquietudo cordis, para que busquem mais do que apenas a sua subsistência? Como transformar corações de pedra em corações de carne?

Esta sempre foi a questão central para os grandes profetas de nossa tradição religiosa, desde Moisés até João Batista. Sobre Moisés, o maior de todos os homens religiosos da história judaica, sabemos que toda sua vida se concentrou num único ponto: arrancar seus irmãos da semi-vida em que as panelas estavam cheias, mas a própria grandeza aprisionada, para conduzi-los ao encontro de uma terra apenas prometida em que seriam filhos de Deus e não mais escravos dos reis. E Jeremias, Isaias, Amós, Elias, todos eles homens de tão intenso ardor que as palavras saiam-lhes da boca como fogo e vendaval… numa quase desesperada tentativa de, pelo fragor e veemência de seus apelos, arrebatar os homens da sua sonolência de espírito.

Não menos impressionante foi João Batista, segundo as palavras do próprio Jesus Cristo: o maior dos homens nascidos de mulher (Mt 11,11). Um homem que, apaixonado pelo Absoluto, abandonou o mundo e recolheu-se no deserto. Um desertor não apenas da civilização, mas também da religião. Pois se é a isto que damos o nome de civilização: este amontoado de víboras e esta rede de relações injustas e iníquas em que uns têm duas túnicas ou mais, enquanto outros regelam ao desabrigo, uns se deliciam na fartura e outros definham na penúria e se é a isto que chamamos de religião: este desenrolar escritos do passado e repetir com os lábios o que já não vai nem vem do coração (Lc 3,7-9). Como não se afastar, definitivamente, de uma tal farsa? É o que faz João Batista.

Era a última esperança daquele desesperado homem de Deus: quem sabe, se reconduzidos, mais uma vez, ao deserto, os homens, na experiência da penúria, redescobririam que, se vivemos e sobrevivemos, sempre será apenas por graça de uma infinita misericórdia que, velada, sustenta os nossos passos: numa nuvem de fumaça ao dia (um leve sinal!), numa coluna de fogo à noite (uma luz nas trevas!), num bando de codornizes que sacia a fome (algo que vem do alto!) e num punhado de maná que sacia a sede e fome (man-hu – o que é isto?).

É aqui que João Batista, como todos os profetas antes dele, adota uma linguagem não apenas dura, rude e impiedosa, mas perigosamente próxima de um macabro cinismo. Que os homens fossem arrancados de sua terra e arrastados pelo deserto, foi sem dúvidas o seu desejo, e aí: em experimentando a sede, percebessem a preciosidade da água; na fome, se encantassem com um pedaço de pão; na solidão, uns vissem os outros como amigos e irmãos e, perdidos na vastidão e nas trevas do sem caminho, voltássemos nosso olhar para as estrelas e para o alto.

São palavras que, temerariamente, quase tocam o desespero e o desejo do sinistro. Mas não é de fato melhor, mil vezes, um fim dramático do que um drama sem fim? E o que fazer, se os homens só se dão conta do que tinham quando já não o têm mais? Não é esta a enigmática lógica de nossa vida? A beleza da pessoa ao nosso lado, a sua importância, o quanto nós a amávamos e dela precisávamos e como felizes éramos junto dela, de tudo isto, quase sempre, só nos apercebemos quando ela se foi. Fazei penitência, era o grito indignado daquele homem de Deus e do deserto. Ainda que por um instante apenas:

passai necessidade, para reaprenderdes a alegria do possuir aquilo que vos é dado de graça;

renunciai à água, para que, quando a tomardes, o façais com reverência;

abjurai os olhares levianos, para que o vosso olhar seja mais leve e delicado e casto;

ponderai as palavras, para falardes com mais pudor;

abstende-vos do muito, para que os que estão do vosso lado possam ter ao menos um pouco.


São Francisco por José Benlliure

Um passo a mais e a penitência perderia seu caráter humano e se degeneraria em auto-flagelação, vilipêndio da natureza e irreverência para com Deus mesmo. E isto aconteceu, como acontece ainda, dentro e fora do cristianismo. A nossa própria história está repleta de exemplos perturbadores, uns quase jocosos, outros estarrecedores:

Santo Antão, ao que consta, nunca mais se banhou, desde os inícios de sua vida eremítica até à morte;

Schnute, um prior copta, surrava tanto os seus monges que seus gritos podiam ser ouvidos nas aldeias circunvizinhas; dele escreveu um discípulo: ele comia apenas uma vez na semana… seus olhos eram como buracos ou cavernas, escurecidos pelas lágrimas que ele derramava a cântaros;

São Jerônimo conta-nos, não sem um certo orgulho, ter conhecido um monge que jamais lavava suas roupas e só trocava a túnica quando esta, apodrecida, despencava aos pedaços;

O mesmo Jerônimo, escrevendo certa feita para uma admiradora romana, dava-lhe alguns conselhos de como ela deveria educar sua pequena filha: Música deve ser proibida; a criança nunca deveria nem mesmo saber para que servem as flautas, as violas e as cítaras. Aprender a ler apenas os homens dos apóstolos e dos profetas e da genealogia de Cristo. Que suas amas e damas de honra não sejam nunca belas e bem cuidadas, mas sérias, descuradas e velhas virgens que a despertem à noite para a oração e o canto dos salmos e exercitem com ela, durante o dia, a liturgia das horas. Que não lhe sejam dados banhos, pois isto fere o pudor de uma jovem menina que jamais deveria se ver desnuda. Melhor seria que, tão logo desmamada, ela tivesse sido retirada desta Roma pecadora e levada para Belém e ali entregue a um convento, para que nunca visse um só homem e, melhor ainda, nunca viesse a saber que existe um outro sexo;

David de Tessalônica teria permanecido assentado por três anos em cima de uma árvore;

incontáveis foram os que se abstiveram quase que integralmente dos alimentos: 15, 20 e até mesmo 28 anos, como Santa Lidwina, ou Domenica Lazzarini e Louise Lateau, no século XIX, que completaram 12 anos de jejum, recebendo diariamente apenas água e a Eucaristia;

o dominicano Heinrich Seuse (1366), um brilhante discípulo de Mestre Eckhart, flagelava-se diariamente e carregou por 8 anos seguidos uma cruz com trinta pregos às suas costas, que, ao final, se transformaram numa única ferida putrefata;

Santa Maria Magdalena dei Pazzi (1566-1607), uma carmelita de Florença, costumava revirar-se nos espinhos, pedia que lhe pingassem vela derretida sobre a pele, que pisassem no seu rosto e a chicoteassem;

narra-se que Marguerite Marie Alacocque (1647-1690) costumava comer pão embolorado e frutas podres e, para humilhar-se a si mesma, teria, certa vez, chegado ao extremo de ingerir o vômito de um doente;

Santa Angela de Foligno (1248-1309) teria bebido da água com que se banhara um leproso;

Infibulação e castração eram tão comuns que se fez necessária uma proibição expressa da Igreja (249).

Por sinceras e bem intencionadas que tenham sido e sejam tais heróicas atitudes, elas pouco ou nada tem a ver com Jesus Cristo. Antes, Jesus viveu de tal maneira que chegaram mesmo a perguntar-lhe, expressis verbis, porque ele e seus discípulos não jejuavam (Mc 2, 18-20). Ironizaram-no até mesmo com os adjetivos nada elogiadores de glutão e beberrão (Mt 11, 19). Mas a verdade de Jesus não foi nem uma coisa nem outra: nem devasso nem asceta, mas um homem da sóbria alegria. Elencar Jesus Cristo na fileira nos anacoretas, dos eremitas, ascetas ou até mesmo encratistas será, no mínimo, uma grave equívoco.

É deste absurdo e equívoco que, em 1946, falava o poeta libanês Kahlil Gibran num das páginas impressionantes de toda sua obra: Em minha juventude contaram-me de uma cidade, na qual todos viviam segundo a Sagrada Escritura. Então eu disse: Quero procurar esta cidade. Tomei grandes providências para a viagem, pois o caminho até lá era longo. Depois de quarenta dias, avistei minha meta e no quadragésimo primeiro dia entrei na cidade. E veja: todos os habitantes tinham somente um olho e apenas uma mão. Fiquei surpreso e pensei: será mesmo que, nesta cidade, todos tenham um só olho e uma só mão? Então vi que também eles estavam admirados e maravilhavam-se por causa de minhas duas mãos e meus dois olhos. Enquanto eles conversavam, aproximei-me deles e perguntei: É esta a cidade, na qual todos vivem segundo a Sagrada Escritura? Eles me responderam: Sim, é ela. Mas o que, tornei a perguntar, o que vos sucedeu e onde estão vossos olhos e vossas mãos direitas? Uma inquietação percorreu a multidão e eles disseram: Vem e vê. Então eles me levaram ao centro da cidade, ao Templo. Ali eu vi um grande número de mãos apodrecidas e olhos. Chocado, perguntei: Que conquistador realizou tal atrocidade contra vós? Outra vez um murmúrio percorreu a multidão. Um dos mais velhos antecipou-se e disse: Nós mesmos fizemos isto. Deus fez-nos vencedores sobre o mal que habitava em nós. Em seguida, ele me conduziu até o altar-mor. Todos nos seguiam. E ele me mostrou uma inscrição cinzelada em pedra e lá eu li: Se teu olho direito é para ti uma pedra de tropeço, então arranca-o e lança-o para longe de ti; pois é melhor para ti perder um de teus membros do que ser lançado no inferno todo o teu corpo. E se tua mão direita é para ti pedra de tropeço, então corta-a e lança-a para longe de ti; pois é melhor para ti perder um de teus membros do que ser lançado no inferno todo o teu corpo. Aí eu entendi. Voltei-me para a multidão e gritei: Nenhum homem e nenhuma mulher entre vós tem dois olhos e duas mãos? Eles responderam: Não, nenhum sequer. Ninguém é completo, exceto aqueles que são ainda muito jovens para compreender o mandamento da Escritura. Quando saímos do Templo, num piscar de olhos, deixei aquela cidade sagrada…

Mas isto era, de fato, o que Jesus queria: reconduzir-nos ao paraíso perdido de nossa última verdade. Não o sofrimento e a cruz são o derradeiro sentido desta vida. O amor, a mesa farta, a música, o brinquedo, o banho, o jardim, o abraço, a ternura, os sorrisos… é para isto que nos chamou à vida: Deus. É para isto que deveríamos trabalhar e lutar: para que este mundo seja um lugar de delícias para todos. A penitência vale tanto quanto vale para nós João Batista: ele não é a meta, mas apenas aquele que prepara o caminho. Igualmente, a penitência não é a meta, mas apenas uma preparação para que, na penúria, despertem-se em nós novos desejos e, na indigência, redescubramos a preciosidade de todas as coisas.

Sobre o autor

Foi religioso da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos na Província de Minas Gerais. Graduado em Filosofia e Teologia pelo Instituto Franciscano de Petrópolis. Doutor em Teologia pela Universidade de Tübingen. Falecido em 2009.

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